Um sistema de alerta via smartwatch desenvolvido por pesquisadores da Mayo Clinic consegue identificar sinais precoces de crises em crianças neurodivergentes. A tecnologia, que utiliza inteligência artificial (IA) para analisar dados fisiológicos, foi testada em um estudo publicado na JAMA Network Open. Os resultados mostram que o dispositivo permite intervenções parentais rápidas, diminuindo significativamente o tempo das crises.
“Este estudo mostra que até mesmo intervenções pequenas e feitas no momento certo podem mudar a trajetória de um episódio de desregulação emocional da criança”, afirma Magdalena Romanowicz, M.D., psiquiatra infantil na Mayo Clinic e colíder do estudo. “Esses momentos dão aos pais a oportunidade de intervir com medidas de apoio — aproximar-se, oferecer segurança, nomear emoções e redirecionar a atenção antes que a birra se intensifique”.
O mecanismo funciona por meio de um relógio inteligente usado pela criança que monitora indicadores como frequência cardíaca, movimentos corporais e padrões de sono. Esses dados passam por análise em tempo real por um aplicativo no celular dos pais, que recebem notificações para interagir com a criança nos estágios iniciais de uma desregulação emocional.
O objetivo da tecnologia é complementar tratamentos profissionais, oferecendo apoio às famílias quando não há acesso imediato a especialistas. Conforme revela o estudo, esse avanço atende a uma necessidade extremamente importante. Uma em cada cinco crianças nos Estados Unidos apresenta algum transtorno mental, comportamental ou emocional, conforme dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças.
Paul Croarkin, psiquiatra infantil da Mayo Clinic e coautor do estudo, destaca: “Um smartwatch pode parecer simples, mas quando é respaldado por tratamentos baseados em evidências e análises avançadas, torna-se uma tábua de salvação para famílias que tentam administrar os sintomas comportamentais intensos em casa”
Metodologia e resultados do estudo
A pesquisa envolveu 50 crianças entre 3 e 7 anos que já recebiam terapia de interação pais-filhos no Centro Médico da Mayo Clinic. Os participantes ficaram em dois grupos diferentes durante as 16 semanas de estudo. Metade utilizou o sistema de smartwatch e metade continuou apenas com a terapia convencional.
Todo o estudo ocorreu nas instalações da Mayo Clinic, onde as crianças já estavam em acompanhamento terapêutico regular. Os pesquisadores monitoraram o progresso das famílias e fizeram ajustes no sistema quando necessário.
Os dados coletados revelaram que os alertas permitiram respostas parentais em até quatro segundos após as notificações. Como resultado, isso reduziu a duração média das crises em 11 minutos, aproximadamente metade do tempo observado com a terapia padrão. Aliás, as crianças utilizaram o dispositivo durante cerca de 75% do período total da pesquisa, o que indica boa adesão ao tratamento.
Em uma pesquisa anterior publicada no Journal of Child and Adolescent Psychopharmacology, o algoritmo desenvolvido pela equipe conseguiu prever o estado comportamental infantil com 81% de precisão, oferecendo um aviso antecipado de 30 a 60 minutos antes de possíveis crises.
Julia Shekunov, M.D., diretora médica da Unidade de Internação em Psiquiatria Infantil e Adolescente da Mayo Clinic e coautora do estudo, diz que o trabalho atende a uma necessidade urgente. “Estamos vendo mais crianças em crise, e a intensidade está aumentando. Esse sistema oferece aos pais ferramentas que eles podem utilizar imediatamente, mesmo fora do ambiente clínico, para ajudar seu filho a retomar o controle”.
Perspectivas futuras
Até o momento, não há informações sobre planos para disponibilização comercial da tecnologia. Também não está definido como o dispositivo funcionaria em populações mais diversas ou se os benefícios observados se manteriam após o término do estudo.
A partir desta pesquisa, espera-se que a tecnologia possa ser refinada e eventualmente integrada a programas de tratamento comportamental pediátrico. Além disso, os pesquisadores planejam aprimorar a precisão preditiva do sistema, testá-lo em grupos maiores e avaliar seus benefícios a longo prazo no cuidado ambulatorial cotidiano.
“Este trabalho mostra como a ciência básica e a pesquisa clínica podem se unir para transformar o cuidado ao paciente”, explica Arjun Athreya, Ph.D., colíder do estudo e membro do corpo docente de engenharia do Departamento de Farmacologia Molecular e Terapêutica Experimental da Mayo Clinic. “Nós traduzimos descobertas obtidas no ambiente de internação para o cuidado ambulatorial. Os resultados mostram como dados de dispositivos inteligentes do dia a dia podem ajudar as famílias em tempo real”.
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