Nasi, do Ira!, usa IA para recriar músicas de sua carreira e compara com Frankenstein

Conhece a IA chamada Suno? É com ela que o vocalista Nasi, 63 anos, da banda paulistana de rock Ira!, mergulhou em uma experiência sonora guiada por inteligência artificial para recriar algumas canções do próprio repertório.

É um projeto que nasceu como brincadeira, mas acabou virando um laboratório sobre imperfeição, erro e humanidade na música. Sai no dia 23 de janeiro nas plataformas digitais.

No processo, ele descobriu que as pequenas falhas que sempre procurou em instrumentos reais, especialmente sopros e cordas, continuam sendo essenciais até mesmo quando a tecnologia entra em cena.

Primeiramente, para Nasi, a IA não deve ser tratada como uma ameaça. Mas como um reflexo ampliado da memória coletiva da criação humana. “A IA é um Frankenstein construído a partir de pedaços da nossa memória”, diz o cantor, defendendo que, assim como no romance de Mary Shelley, o erro estaria em renegar a criatura — não em criá-la.

Todas as músicas de “nAsI – Artificial Intelligence” são versões de canções que ele mesmo fez em sua carreira solo: “Corpo Fechado”, “Feitiço na Rua 23”, “Ogum”, “Polvo em Los Ojos (Poeira nos Olhos)”, “Perigoso” e “Alma Noturna”.

Neste papo exclusivo com o Giz Brasil/Outro Prompt_, Nasi contou detalhes e os paradoxos causados por este trabalho, o primeiro com IA de um artista brasileiro de renome.

A entrevista com Nasi sobre o trabalho com IA

Na recente entrevista para a Folha, você comenta que algumas versões geradas pela IA ficaram tão limpas que perdem a “sujeira” que torna a música mais humana. Para você, qual é o limite ideal entre o refinamento que a IA pode proporcionar e a “imperfeição” que dá alma à música? Como encara esse paradoxo de perfeição versus humanidade?

Nasi – Na verdade, o que eu quis dizer é que isso vale principalmente para os timbres de instrumentos de sopro e de cordas — ou seja, naipe de metais, como a gente diz, e violinos e violoncelos. Antes da IA, eu nunca gostei muito de usar recursos de teclado que recriavam esses sons digitalmente, justamente porque ali já existia uma perfeição “microtônica” — eu até inventaria essa palavra, se ela não existir — que tirava aquelas imperfeições mínimas. Na matéria saiu “semitonado”, mas não é o termo correto. Semitonado é desafinado. Eu quis dizer “micro”, sabe? Muito sutilmente semitonado.

Isso é algo que a gente observa muito, por exemplo, nas brass bands de New Orleans, que eu adoro. Elas são a base do jazz, na minha opinião, nascido nos enterros e funerais da região. Essas bandas não são completamente afinadas, e é justamente esse sutil choque que torna tudo mais humano do que mecânico.

Veja: procurei, nesse trabalho, não usar nenhum elemento de rock, blues ou soul — que são, aliás, a minha praia principal. E são estilos que envolvem instrumentos cujo som digital/artificial eu não gosto, como a guitarra. A guitarra é um bom exemplo de instrumento em que a IA teria dificuldade, especialmente no som distorcido do rock, punk, heavy metal, hard rock. Existem pequenas “traves”, como a gente diz na música — mínimas falhas, uma nota aqui, uma corda ali que não está perfeita — e é isso que humaniza.

Disco experimental

Esse meu disco é experimental. Não estou inaugurando uma nova forma de trabalhar música. Foi uma brincadeira que ficou séria, basicamente. Assim como eu gostei e as pessoas ao meu redor gostaram, quis disponibilizar para quem também possa curtir, desde que deixe o preconceito de lado. Isso não é o futuro da minha música, nem o futuro da música. Agora, que o futuro da música pertence à interação entre humano e artificial, isso eu não tenho dúvida nenhuma.

Já presenciei vários paradigmas sendo quebrados: antes de mim, foi o paradigma da guitarra elétrica. Depois, quando comecei a produzir os primeiros discos de rap no Brasil: “O que é isso? Bateria eletrônica?”; “O que é isso? Um loop de quatro compassos do James Brown?”; “Um loop de oito compassos do Lionel Richie, do Chic…” Isso já gerava tanto problema quanto a IA gera hoje — e acabou se naturalizando.

Analogia com Frankenstein

É assim que eu imagino: em vez de ver a IA como um Frankenstein, um monstro que você criou, vamos assumir a analogia. O que é o monstro de Frankenstein? Um ser formado de pedaços de várias pessoas. O que é a IA? Um Frankenstein construído a partir de pedaços da nossa memória. Ela não criou as referências que devolve. Ela busca na música humana que está disponível. Então, assim como o Dr. Victor, a gente não pode renegar o monstro, senão ele se volta contra nós.

Direitos autorais

Considerando que está usando versões de músicas que você mesmo compôs, você disse que “não é contra o pagamento de direitos” se alguém reclamar. Como você vê a questão dos direitos autorais e da remuneração quando a IA contribui para a criação do arranjo?

Nasi – Isso não ficou muito claro. O que eu quis dizer é o seguinte: se eu fizesse, por exemplo, uma versão autoral de uma música do Erasmo Carlos — como já regravei várias vezes — usando IA, eu seria obrigado a pagar os direitos. Aliás, essa lei está sendo discutida agora. Não sei se você lembra, mas quando surgiram os samples e os loops de James Brown, teve que se criar uma legislação para isso. Com a IA vai ser igual.

Então, hipoteticamente, se eu usasse outro autor, eu pagaria. No caso do meu disco, não usei nenhum autor externo. São todas músicas minhas — no máximo com um parceiro, que obviamente autorizou. Agora, quanto a estilo, ninguém paga estilo. Se eu quiser fazer um trap com referência ao MC Zeus, é só o estilo. Quantas músicas do Ira! ou da minha carreira solo eu não fiz pensando “isso tem que soar como o Clash”? E eu dizia isso para a banda: “é assim, assim e assim que soa Clash”.

IA vai superar?

Quando você permite que a IA rearranje músicas que marcaram sua trajetória, não está apenas mexendo no som, mas também reescrevendo a memória afetiva dos fãs. Até onde você acha legítimo “atualizar” obras consagradas com tecnologia? Há risco de a IA criar versões que superem as originais?

Nasi – Cara, existe um limite para o artista ficar se preocupando com a memória afetiva dos fãs. Se não, a gente faria o mesmo disco repetidamente. Esse é o grande desafio do artista: se reinventar. Já fiz, por exemplo, uma versão em blues de “Dias de Luta”, que muitos fãs adoraram. Mas, claro, também ouvi gente dizendo “em clássico não se mexe”. Quem disse isso?

Antes de ser um músico, sou um artista. Existe uma diferença muito grande entre ser músico e ser artista. Estou aqui para desafiar paradigmas em nome do resultado final e da minha arte. Para cada música que escolhi, rejeitei várias versões criadas pela IA. O resultado final é o que eu selecionei das performances que ela me mostrou — e mesmo assim, ainda editei tudo para ficar no tamanho e na forma que eu queria, para eu poder cantar.

Imagina se dissessem que só se pode pintar quadro com pincel. Spray não é arte? Pintar com os dedos não é arte? Vídeo-arte não é arte? O limite para uma reinvenção possível sou eu mesmo — eu sou o autor e o intérprete. Sou o Dr. Victor Frankenstein e a criatura. Sou os dois.

Eficiência da IA pode incomodar

Se a IA produzir versões das suas músicas que o público considere melhores que as originais, isso te incomodaria? Ou seria uma evolução natural da obra?

Nasi – De jeito nenhum. Tem uma música, “Polvo en los Ojos”, uma versão latina de “Poeira nos Olhos”, que gravei pela primeira vez em 1995, numa melodia autorizada do John Coltrane, e ficou melhor que a original. Essa é a quinta versão que faço dessa música. As outras tinham conga, naipe, mas eu nunca as levei totalmente para Cuba. Nessa, levei.

Aliás, outra coisa que não falei: das seis músicas, três eu canto em espanhol — argentino, portorriquenho e mexicano — sotaques que tive que estudar com pessoas que entendem das diferenças. Escolhi cantar “Polvo en los Ojos” em espanhol cubano porque, em português, não ficava tão cubano quanto o original pedia. Esse tipo de maluquice só é possível quando você topa encarar o espelho.

A IA que foi utilizada

Qual IA você usou nesse trabalho “nAsI – Artificial Intelligence”?

Nasi – É o Suno. Lembrando, cara: nem eu nem o Augusto Júnior (músico que participa do projeto) somos nerds. Até brinco que ele é o Pink e eu sou o Cérebro daquela dupla, Pink & Cérebro. A gente fez tudo de modo experimental, tateando. Não usamos IA de forma técnica, sabe? Ficamos mais no campo da musicalidade. A IA me entregava coisas, eu selecionava, e depois ainda editava muito para deixar tudo como eu queria. Por mais digital que seja, o resultado é muito humano. Aliás, desde sempre lidamos com evoluções tecnológicas: do mono para o estéreo, do estéreo para o multitrack… Tudo isso já assustou artistas no passado, e está aí até hoje.

 

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