Ingredientes da vida podem ter surgido antes de planetas no universo jovem

Uma equipe de cientistas da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, identificou que peptídeos, componentes essenciais para a formação de proteínas, podem se desenvolver no espaço profundo antes mesmo da existência de planetas. O estudo contradiz teorias anteriores que limitavam a formação de moléculas complexas a estágios mais avançados do desenvolvimento estelar. A revista científica Nature Astronomy publicou o estudo.

Em laboratório, os pesquisadores conseguiram produzir glicilglicina, considerado o dipeptídeo mais simples, ao replicar condições extremas do espaço interestelar. De acordo com o Space.com, esta descoberta representa um avanço significativo na compreensão dos processos químicos que ocorrem no Cosmos.

Para isso, resfriaram glicina a temperaturas de -260 graus Celsius, simulando as camadas geladas que cobrem grãos de poeira cósmica, e bombardearam a amostra congelada com prótons de alta energia, que representam os raios cósmicos.

“Costumávamos pensar que apenas moléculas muito simples poderiam ser criadas nessas nuvens. Mas demonstramos claramente que esse não é o caso”, afirmou Sergio Ioppolo, que liderou a pesquisa.

Desvendando a origem da vida

O estudo contribui para responder uma das questões fundamentais da ciência: como surgiram os blocos moleculares da vida. Embora astrônomos já tivessem encontrado moléculas orgânicas simples em nuvens interestelares e preservadas em meteoritos e cometas, ainda não estava claro como os aminoácidos poderiam se ligar nas rigorosas condições espaciais para formar peptídeos.

“Já sabemos de experimentos anteriores que aminoácidos simples, como a glicina, se formam no espaço interestelar. Mas estávamos interessados em descobrir se moléculas mais complexas, como peptídeos, se formam naturalmente na superfície de grãos de poeira antes que estes participem da formação de estrelas e planetas”, explicou Ioppolo.

Condições extremas e resultados surpreendentes

Os experimentos revelaram que a radiação ionizante fornece energia suficiente para quebrar e reformar ligações químicas, permitindo que aminoácidos presos no gelo se liguem sem necessidade de água líquida. Além da glicilglicina, a equipe observou a formação de água comum, uma forma de água com deutério e outras moléculas orgânicas complexas.

Alfred Thomas Hopkinson, coautor do estudo e também da Universidade de Aarhus, destacou: “Todos os tipos de aminoácidos se ligam em peptídeos através da mesma reação. Portanto, é muito provável que outros peptídeos também se formem naturalmente no espaço interestelar. Ainda não investigamos isso, mas provavelmente o faremos no futuro.”

Implicações para a busca da vida no universo

Esta descoberta amplia significativamente os ambientes nos quais os precursores da vida podem se formar, não estando limitados apenas a condições quentes e úmidas como anteriormente se pensava.

“Eventualmente, essas nuvens de gás colapsam em estrelas e planetas. Pouco a pouco, esses minúsculos blocos de construção pousam em planetas rochosos dentro de um sistema solar recém-formado. Se esses planetas estiverem na zona habitável, então existe uma probabilidade real de que a vida possa surgir”, disse Ioppolo.

O cientista acrescentou: “Dito isso, ainda não sabemos exatamente como a vida começou. Mas pesquisas como a nossa mostram que muitas das moléculas complexas necessárias para a vida são criadas naturalmente no espaço.”

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