Expedição Jutaí: em busca de ratos na Amazônia

“Olha um rato ali”, gritou o pesquisador, de repente, apontando para o tronco de uma árvore parcialmente submersa à nossa esquerda. Minha primeira reação foi de incredulidade. Afinal de contas, tínhamos acabado de chegar e estávamos navegando em alta velocidade por entre os troncos e galhos de uma floresta alagada no meio da Amazônia, justamente a caminho de instalar as primeiras armadilhas para, quem sabe, capturar um bicho daqueles durante a noite. Seria surreal demais avistar um deles assim, logo no primeiro dia, dando mole fora de sua toca em plena luz do dia. Mas lá estava ele. O piloto do bote desacelerou e ainda deu tempo de ver um vulto peludo se esgueirando para dentro de um oco no centro da árvore. 

Eu jamais teria notado aquele animal ali, camuflado no meio da vegetação; mas os pesquisadores têm olhos treinados para isso. Dentro da embarcação— um bote de alumínio motorizado, tradicionalmente chamado de “voadeira” na Amazônia — estavam seis cientistas, incluindo o biólogo Rayque Lanes, vinculado à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que avistou o roedor. Era uma tarde ensolarada de verão amazônico, dia 8 de julho de 2025, e estávamos em busca de uma trilha que nos daria acesso a uma área de terra firme nos arredores da comunidade Marauá, na Reserva Extrativista (Resex) do Rio Jutaí, no oeste do Amazonas. Objetivo da expedição: conhecer melhor a biodiversidade de mamíferos dessa região ainda pouco estudada e relativamente bem preservada da Amazônia.

A voadeira encostou na árvore e o biólogo Paulo Ricardo Roth enfiou o braço no oco do tronco para tentar capturar o rato, sem pensar duas vezes (usando apenas um chapéu de pescador marrom para proteger sua mão de uma provável mordida). Fuçou para cima, fuçou para baixo, e nada. Outro pesquisador deu a ideia, então, de usar um galho maleável para cutucar mais fundo e estimular o bicho a sair da toca. Deu certo até demais! O rato pulou de repente para fora do oco e para dentro da voadeira, como se fosse um paraquedista saltando de um avião, assustando todo mundo e causando um alvoroço entre os ocupantes da embarcação — não por medo do rato, mas por receio de que ele fugisse para dentro d’água.

O fuzuê durou alguns segundos, até que o próprio Roth conseguiu apreender o bicho. Era um roedor do gênero Makalata, popularmente conhecido como rato-de-espinho (por causa da sua pelagem de aparência espinhosa), com cerca de 30 centímetros de corpo, mais uns 30 centímetros de cauda, focinho alaranjado e olhos bem grandes e redondos. Um belo rato. (“Ratos” ou “ratinhos”, no contexto desta reportagem, são termos genéricos usados pelos pesquisadores para se referir a uma ampla gama de pequenos roedores da floresta. São animais nativos e essenciais à saúde do bioma amazônico; diferentemente dos ratos e camundongos urbanos, que são espécies exóticas, de origem asiática, que só chegaram à América do Sul mais recentemente, de carona com a colonização europeia.)

“Foi muita sorte ver o bicho de dia; mais sorte conseguir desentocar e mais sorte ainda conseguir pegar”, avalia Roth, pesquisador colaborador do Laboratório de Mamíferos (Lama) da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP em Piracicaba, onde fez seu doutorado. “Parece até que é fácil pegar rato na Amazônia”, brinca o biólogo.

Parece, mas não é. O episódio do “rato paraquedista” foi, realmente, um ponto fora da curva. Tipicamente, a captura desses roedores para fins de pesquisa é feita por meio de armadilhas que são deixadas na floresta para atrair os animais durante a noite, quando eles são mais ativos; e a taxa média de sucesso na Amazônia é de 2% a 3% — ou seja, de cada 100 armadilhas, apenas duas ou três pegam alguma coisa. Nessa expedição, não foi muito diferente. Ao longo de 13 dias de trabalho no campo, usando centenas de armadilhas e outros métodos de amostragem, os pesquisadores capturaram 78 pequenos mamíferos, de 18 espécies diferentes (dez de roedores e oito de marsupiais). Taxa de sucesso: 1,5%.

“São poucos bichos, mas com uma diversidade de espécies muito boa”, avalia Alexandre Percequillo, professor da Esalq, coordenador do Lama e líder do projeto que organizou a expedição, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Ao todo, participaram da expedição nove cientistas, de quatro instituições de pesquisa — USP, Fiocruz, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Universidade Federal de Lavras (UFLA) —, incluindo docentes, pesquisadores colaboradores e alunos de pós-graduação. O Jornal da USP acompanhou a equipe durante duas das quatro semanas de viagem.

O projeto busca compreender melhor a diversidade de pequenos mamíferos das regiões tropicais e subtropicais do continente americano, principalmente na Amazônia. É um exemplo clássico de pesquisa básica sobre biodiversidade. Em suma, os pesquisadores querem saber quantas espécies desse grupo existem na região; quem são elas, como elas estão distribuídas pelo território e como elas se relacionam entre si, tanto do ponto de vista ecológico quanto evolutivo. E só há uma maneira de fazer isso: indo a campo para coletar. Apesar de todos os avanços tecnológicos alcançados nos últimos tempos, o conhecimento científico sobre a biodiversidade global ainda depende, fundamentalmente, da atividade básica de coletar e observar espécies na natureza, complementarmente ao conhecimento dos povos e das comunidades tradicionais de cada bioma.

Iniciado em 2022, o projeto já realizou expedições similares a outros dois grandes cursos d’água da Amazônia: o rio Branco, que corta o Estado de Roraima de norte a sul; e o rio Purus, no centro-sul do Amazonas. Agora, foi a vez do Jutaí, um rio sinuoso de 1.200 quilômetros de extensão, que nasce nas entranhas do Vale do Javari, no extremo oeste do Amazonas, e deságua na margem sul do rio Solimões, próximo à tríplice fronteira com o Peru e a Colômbia. É uma região de cobertura florestal bem preservada, repleta de áreas protegidas e povoada por diversas comunidades indígenas e ribeirinhas; mas ainda pouco conhecida da ciência, em função das grandes distâncias e das dificuldades logísticas de acesso.

Foi justamente esse grau de isolamento e desconhecimento que atraiu a atenção dos pesquisadores para lá. “Coletamos séries importantes de alguns bichos que são pouco representados nas coleções científicas existentes”, avalia Percequillo, de 56 anos, um dos mastozoólogos (especialista em mamíferos) mais experientes do Brasil e veterano de muitas expedições amazônicas. Os baixos índices de captura, segundo ele, fazem parte do desafio de estudar esses habitantes mais furtivos do bioma. “Estamos preenchendo lacunas nesse quebra-cabeça da biodiversidade de pequenos mamíferos dessa porção mais ocidental da Amazônia”, justifica ele.

Entre a chegada e o retorno a Manaus, foram quase 30 dias de viagem, o que exigiu um extenso planejamento logístico para a compra e o transporte de toneladas de mantimentos e equipamentos. Só o deslocamento pelo rio Solimões até a entrada do rio Jutaí demorou cinco dias. Por questões de segurança (contra acidentes e criminosos), o barco só viajava durante o dia e atracava em alguma cidade durante a noite. Toda a expedição foi realizada à bordo do B/M Freitas Viana, um barco de madeira, com dois andares e 23 metros de comprimento, liderado por Alexandre Freitas, um jovem capitão manauara que conhece os rios da floresta como as ruas de uma cidade. 

Somando tudo, ida e volta, foram mais de 2 mil quilômetros navegados, sem contar os deslocamentos diários de voadeira para instalar e checar as armadilhas no campo. A equipe instalou armadilhas no entorno de três comunidades ribeirinhas do rio Jutaí: Marauá, São Raimundo Moreira e Acural; sempre com autorização das comunidades locais e das unidades de conservação envolvidas (Resex do Rio Jutaí e Estação Ecológica de Jutaí-Solimões), geridas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Apesar de não serem tão “midiáticos” quanto as onças-pintadas e outros animais icônicos da Amazônia, esses ratinhos e outros pequenos mamíferos exercem um papel fundamental na estrutura ecológica da floresta. Eles servem de alimento para um grande número de espécies de fauna — não só de mamíferos maiores, mas também de aves e répteis —, além de atuarem, eles mesmos, como predadores e dispersores de sementes de diversas espécies de plantas. “São animais que têm um papel bastante importante na manutenção dos ecossistemas”, destaca Percequillo.

Os roedores são o grupo com a maior diversidade de espécies dentre todos os mamíferos. Em toda a Amazônia, há 114 espécies de roedores conhecidas, de diversos tamanhos, desde ratinhos e esquilos até cutias e capivaras, segundo dados da Sociedade Brasileira de Mastozoologia (SBMZ). Mais de 70 delas são endêmicas do bioma — ou seja, só existem na Amazônia. E, considerando que ainda há muitas áreas pouco amostradas do bioma, o potencial para a descoberta de novas espécies permanece grande; não só de roedores, mas de outros mamíferos também.

Nessa expedição ao rio Jutaí foram coletados 179 animais de 47 espécies: dez de roedores, oito de marsupiais, 25 de morcegos, três de primatas e uma de porco-do-mato. À primeira vista, os pesquisadores suspeitam que duas delas possam ser espécies novas, nunca antes documentadas pela ciência: um marsupial do gênero Monodelphis, que abrange as chamadas cuícas (ou catitas ou mucurinhas, dependendo da região); e um morcego frugívoro do gênero Sturnira.

Todas essas identificações, porém, ainda precisam ser confirmadas por análises mais detalhadas em laboratório, tanto do ponto de vista morfológico quanto genético. Muitas espécies geneticamente distintas podem parecer morfologicamente  idênticas, assim como indivíduos de uma mesma espécie podem parecer muito diferentes uns dos outros (como é o caso dos seres humanos); por isso, a importância de coletar esses espécimes na natureza e preservá-los como vouchers (exemplares de referência) de suas respectivas espécies em coleções científicas. Essa é a pedra-fundamental da taxonomia e da sistemática, os ramos da ciência que trabalham com a descrição de espécies e o estudo das relações de parentesco entre elas — que, por sua vez, são a pedra-fundamental de todo o conhecimento sobre a biodiversidade do planeta.

“A coleta é fundamental. Se você não tem o bicho, junto com todas as amostras e informações que você traz do campo, você não tem muito com o que trabalhar depois”, destaca a pesquisadora Ana Lazar, especialista em mamíferos do Museu Nacional da UFRJ, que também participou da expedição. “Você tem os bichos que já estão no museu, mas que um dia também foram coletados.”

Os ratos e outros roedores são particularmente difíceis de se identificar com precisão, explica Lazar. Muitas vezes, os pesquisadores sabem o gênero (grupo taxonômico) ao qual o animal pertence, mas a espécie exata só pode ser definida com base em uma análise detalhada de suas características morfológicas e cromossômicas. “Tem uns bichos da coleta no Purus que a gente ainda está tentando descobrir o que são”, conta a pesquisadora, referindo-se ao rio prospectado pelo grupo em 2024.

Esses pequenos mamíferos são coletados na natureza, principalmente, por meio de duas técnicas: armadilhas com isca e armadilhas de queda (pitfalls, em inglês). A primeira categoria utiliza uma maçaroca de banana amassada com creme de amendoim — e às vezes sardinhas ou outros ingredientes potencialmente saborosos ao nariz de um rato — para atrair os animais até uma ratoeira ou uma caixa de alumínio que se fecha automaticamente quando o animal entra nela para investigar a isca. Já as pitfalls são, basicamente, baldes enterrados no solo, em que os animais caem dentro e não conseguem mais sair. 

Centenas dessas armadilhas são instaladas em áreas selecionadas da floresta, seguindo protocolos padronizados de distribuição e operação para garantir a validade científica dos resultados. O trabalho de campo é pesado. Todos os dias, os pesquisadores percorrem as trilhas e checam cada uma das armadilhas, substituindo as iscas e recolhendo os animais que foram capturados. “A expectativa é sempre baixa; mas a esperança, não”, brincou Lazar, depois de checar dezenas de armadilhas vazias no primeiro dia. O número de capturas pode ser influenciado por diversas variáveis. Os melhores dias costumam ser os de chuva; e só choveu forte uma única vez durante toda a expedição (atípico para essa época do ano na Amazônia). Nesse dia, 18 bichos foram capturados.

Nas duas primeiras comunidades visitadas pela expedição foram instaladas cerca de 400 armadilhas de isca e 100 baldes, que precisavam ser verificados e limpos todos os dias, faça chuva ou faça sol. Trabalho duro, mas gratificante para quem aprecia a biodiversidade. “Não tem lugar melhor para estar”, resume Lazar, com um sorriso no rosto. Um pouco mais adiante na trilha, a bióloga Nathália Feregueti, de 23 anos, não poderia estar mais feliz em sua primeira expedição amazônica. “O sonho de todo jovem biólogo é vir pra Amazônia”, diz a mestranda da USP, que estuda a diversidade e a distribuição de um gênero de ratinhos chamado Scolomys.

De volta ao barco, o trabalho continua: cada espécime coletado é submetido a um procedimento de eutanásia (seguindo protocolos éticos para reduzir ao máximo o sofrimento animal) e um processo de taxidermia, que permite a preservação de seus tecidos a longo prazo em coleções científicas. Todas as medidas do animal são registradas, e amostras de tecido muscular e hepático são coletadas para uso em análises genéticas, que podem ser fundamentais para a identificação dos bichos e para estudos de ancestralidade e parentesco entre espécies (filogenia). Além disso, amostras de secreções bucais e anais são coletadas com cotonetes (swabs) para estudos de virologia.

O objetivo é contemplar a maior variedade possível de linhas de pesquisa, para extrair o máximo possível de conhecimento de cada espécime coletado da natureza. “Quanto mais informações você tiver associadas a um indivíduo coletado, maior o valor científico daquele indivíduo”, destaca Percequillo. As análises de virologia serão realizadas no Institut Pasteur de São Paulo, com o intuito de identificar quais tipos de vírus estão circulando pela fauna silvestre da Amazônia — informações que podem ser cruciais para a prevenção e o monitoramento de zoonoses (doenças transmitidas por animais a seres humanos). 

Todos os animais coletados na viagem serão depositados nas coleções biológicas da Esalq e do Instituto de Biociências (IB) da USP, onde poderão ser acessados por qualquer pesquisador interessado. “Uma coisa importante dessas coleções é que elas são para várias gerações”, reflete Percequillo. “As coleções que eu estou fazendo hoje, elas não são para mim. Elas são para nós; são para todo cientista que está interessado em pesquisar a diversidade biológica, seja na Amazônia, no Brasil ou na América do Sul. A gente está colaborando com o crescimento de um conhecimento que é para todos.”

Além da colocação de armadilhas, os pesquisadores também fazem buscas ativas, diurnas e noturnas, para tentar capturar espécies arborícolas, que dificilmente descem até o solo da floresta — e, portanto, dificilmente caem nas armadilhas tradicionais. Nesse caso, são usadas armas de fogo ou de pressão, com todas as autorizações necessárias.

Os morcegos, por sua vez, são capturados com armadilhas de rede, que são estendidas em pontos estratégicos de circulação desses mamíferos voadores. As redes precisam ser abertas em diferentes altitudes para capturar a maior diversidade possível de morcegos, já que cada espécie, tipicamente, só frequenta um nível da floresta, dependendo dos seus hábitos alimentares e das suas características de voo. Próximo ao solo, elas são chamadas “redes de neblina”, e próximo à copa das árvores são chamadas “redes de dossel”. A malha fina e preta torna essas redes imperceptíveis para a maioria dos morcegos, a não ser para espécies que possuem uma capacidade de ecolocalização muito aguçada. 

“A fauna de morcegos é muito complexa. A gente pode ter aqui, nessa região, por volta de 60 espécies; mas elas se distribuem de forma muito complexa e muito variada no ambiente”, explica o pesquisador Renato Gregorin, professor do Departamento de Biologia da Ufla, enquanto contempla uma clareira na floresta — lugar ideal para a abertura de uma rede de dossel. Além das redes, os pesquisadores também fazem buscas ativas em buracos de árvores, telhados de casas e outros espaços que podem servir de abrigo para morcegos.

Em uma das noites que acompanhei Gregorin no campo, ele abriu uma rede de neblina ao lado de uma casa na comunidade de São Raimundo Moreira, um agrupamento isolado de sete famílias à beira de um braço do rio Jutaí. Logo que escureceu, em um intervalo de dez minutos, cinco morcegos, de cinco espécies diferentes, caíram na armadilha: dois frugívoros, um nectarívoro, um insetívoro e um hematófago (que se alimenta de sangue). “A diversidade na Amazônia é linda”, exaltou o pesquisador. 

A captura do morcego-vampiro foi uma surpresa, até mesmo para Gregorin. Segundo ele, a espécie Desmodus rotundus é a única que se alimenta do sangue de mamíferos no Brasil e é raríssima de se encontrar na Amazônia, principalmente em áreas de floresta primária, porque a densidade populacional de mamíferos silvestres não é suficiente para sustentar grandes populações desses morcegos. “Vocês acertaram na loteria”, brincou Gregorin. 

Para além do foco em mamíferos, o grupo sempre viaja acompanhado de um especialista em répteis e anfíbios (herpetólogo), que coleta espécimes desses outros grupos de fauna para pesquisas no Departamento de Zoologia do IB — fruto de uma colaboração de longa data entre Percequillo e o herpetólogo Miguel Trefaut Rodrigues, professor sênior do instituto. 

O especialista destacado para essa expedição foi herpetólogo José Cassimiro da Silva Junior, colaborador (e ex-aluno) do laboratório de Rodrigues, com grande experiência de campo. Os mesmos baldes que capturam os pequenos mamíferos servem para capturar répteis e anfíbios. Uma cerca de plástico preto é estendida entre um balde e outro para bloquear a passagem dos animais e direcioná-los até as armadilhas.

No total, foram registradas (coletadas ou observadas) 16 espécies de anfíbios, 15 de lagartos, oito de serpentes e duas de jacarés.

Desafios locais

Cobras, aranhas e morcegos-vampiros podem parecer assustadores aos olhos de um observador urbano, mas estão longe de ser a preocupação de quem vive nessas áreas mais remotas da Amazônica. A criminalidade é uma ameaça que transita em larga escala pelos rios da região, em conexão com atividades de garimpo, pesca ilegal e tráfico de drogas.

Até poucos dias antes do embarque, Percequillo cogitou seriamente mudar o destino da expedição, em função de relatos sobre atividades de pirataria no rio Solimões — em que bandidos invadem embarcações para praticar crimes, muita vezes de forma violenta e com o uso de armamentos pesados —, principalmente no trecho entre Coari e Jutaí. A ideia seria transferir o trabalho para um rio mais próximo de Manaus, de forma a evitar esse trecho mais perigoso do Solimões. A viagem só foi confirmada próximo da data de partida, quando Percequillo conseguiu falar com pessoas da região que disseram que a situação estava mais tranquila naquele momento, em função de operações recentes de combate ao crime pelas autoridades.

No fim das contas, a expedição transcorreu sem incidentes, mas havia uma preocupação constante da equipe de pesquisa e da tripulação do barco com a segurança. Em vários momentos, cruzamos com dragas e outras embarcações associadas a atividades de garimpo.

Por coincidência, na última semana de julho, a Polícia Federal realizou uma grande operação na região, em parceria com o ICMBio e a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), que resultou na destruição de pelo menos 16 dragas e na apreensão de vários outros equipamentos (como combustível, voadeiras e motores) que estavam sendo usados para a mineração ilegal de ouro na bacia hidrográfica dos rios Jutaí, Bóia, Igarapé Preto e Biá (todos localizados no município de Jutaí, que é maior do que o Estado do Rio de Janeiro). Outra grande operação, em 2019, destruiu mais de 50 balsas de garimpo na mesma região.

Outra ameaça percebida por Paiva nos últimos 20 anos é a da mudança climática. “Antes a gente não tinha essa dificuldade na época da seca para o escoamento da produção. Hoje a gente tem, porque a seca é muito extensa, né?”, relata ele, que trabalha como condutor de lancha e conhece os cursos d’água da região com uma afinidade espantosa. “E aí, quando vem a cheia, em algumas comunidades também dá aquele impacto.”

As reservas extrativistas são unidades de conservação de uso sustentável, em que as comunidades tradicionais têm exclusividade sobre a exploração dos recursos naturais e gerenciam o território em parceria com o ICMBio. A Resex do rio Jutaí foi criada em 2002 e seu plano de manejo foi aprovado em 2011. Segundo Paiva, cerca de 240 famílias vivem na reserva, organizadas em 16 comunidades no rio Jutaí e 11 no rio Riozinho, que delimita a margem leste da unidade. A maioria dessas comunidades sobrevive da agricultura de pequena escala (roça) e da pesca, incluindo o manejo de pirarucu, seguindo limites estabelecidos no plano de manejo da unidade. Já a Estação Ecológica de Jutaí-Solimões é uma unidade de proteção integral, onde só são permitidas atividades de pesquisa e conservação ambiental.

Na comunidade Marauá, a primeira visitada pelos pesquisadores, vivem 37 famílias. É uma comunidade acolhedora, com casas bem cuidadas e alinhadas ao longo de uma calçada que margeia o rio, com rede elétrica, internet e um postinho de saúde. O senhor Arnaldo Trajano, mais conhecido como “Pilha”, é uma das lideranças locais que deu apoio ao trabalho dos cientistas e organizou uma equipe para ajudar na abertura de trilhas e na colocação de armadilhas. 

Pergunto a ele se tem notado mudanças na Amazônia nos últimos anos. “Companheiro, eu já estou aqui há 27 anos e eu acho que a extensão da floresta está meio feia”, responde Pilha, que vive da produção de banana, mandioca e cará. Segundo ele, está muito mais difícil trabalhar na roça hoje em dia do que antigamente, por causa do calor. “Eu não sentia essa quentura e coisa e tal; hoje a gente não aguenta”, relata ele. “Outra coisa que está afetando nós é maior doença, por causa dessa floresta que está acabando.” Pilha e sua esposa contraíram dengue pela primeira vez no ano passado, durante uma visita a familiares em Jutaí. “É mais ruim que malária”, disse Maria Leni.

Os ribeirinhos disseram ver com bons olhos o trabalho dos pesquisadores na região. Segundo Paiva, é uma forma de trazer atenção para a região e agregar valor científico ao conhecimento das comunidades tradicionais, que são “as verdadeiras guardiãs da floresta”. 

Percequillo, por sua vez, se orgulha de estar proporcionando a alguns de seus alunos a mesma experiência inesquecível que ele teve ainda na graduação: de conhecer e se apaixonar pela Amazônia. “É um papel que eu fico muito feliz de estar podendo proporcionar às novas gerações”, disse. Segundo ele, “ninguém volta igual” da Amazônia. “Eu acho que esse mergulho, nessa nova realidade, é extremamente importante; (…) não só pelo deslumbramento com a natureza, mas por conhecer uma região, uma cultura e uma forma de encarar a vida que é muito diferente daquela a que a gente está acostumado.”

Além de todos os cientistas já mencionados, também participaram da expedição o biólogo Marcos Angelo Alves Filho, aluno de mestrado no Museu de Zoologia da USP (orientado por Percequillo), e Cibele Rodrigues Bonvicino, pesquisadora vinculada ao Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), especialista em Genética e Taxonomia de mamíferos.

Mais informações: percequillo@usp.br, com Alexandre Percequillo

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