Advogados dos EUA identificam uma tendência crescente de casamentos sendo desfeitos devido a vínculos emocionais desenvolvidos com inteligência artificial. O fenômeno ocorre em diversos estados dos Estados Unidos. Na Califórnia, por exemplo, já existe discussão para classificar legalmente a IA como “terceira parte” em processos de divórcio.
A inteligência artificial tem se tornado cada vez mais presente no cotidiano das pessoas. Chatbots que oferecem suporte emocional constante e raramente geram conflitos atraem indivíduos cujas necessidades emocionais não são atendidas em seus relacionamentos humanos.
Os casos de separações motivadas por relacionamentos com IA têm aumentado. Uma mulher encerrou seu casamento de 14 anos após descobrir que o marido gastou milhares de dólares com um aplicativo de IA, acreditando estar em um relacionamento real com uma mulher que chamava de “garota latina sexy”.
De acordo com a WIRED, há também o caso de Eva, escritora de 46 anos de Nova York, que terminou com seu parceiro humano após ficar muito apegada aos seus companheiros de IA, admitindo que eles “se tornaram mais difíceis de ignorar”.
Rebecca Palmer, advogada especializada em divórcios, afirma que pessoas com carências emocionais são “os mais vulneráveis às influências e comportamentos da IA. E particularmente se um casamento já está enfrentando dificuldades.”
Palmer, que atua na Flórida, menciona que sua firma em Orlando tem trabalhado com cônjuges que se divorciaram ou estão em processo de divórcio devido a casos de infidelidade com IA.
Aspectos legais e estatísticas
Cerca de 60% dos solteiros consideram relacionamentos com IA uma forma de traição, de acordo com pesquisas da Clarity Check e do Instituto Kinsey da Universidade de Indiana. Em 16 estados norte-americanos, a infidelidade conjugal é ilegal, sendo que 13 deles classificam a traição como contravenção.
As leis são mais rigorosas em Michigan, Wisconsin e Oklahoma, onde o adultério é considerado crime grave, punível com até cinco anos de prisão ou multa, que pode chegar a US$ 10.000 em Wisconsin.
Palmer relata um caso atual envolvendo um cônjuge que compartilhou informações privadas com um chatbot, incluindo dados bancários e números de seguridade social. Segundo ela, isso estava “consumindo a vida do cônjuge e afetando seu desempenho profissional.”
A classificação legal desses relacionamentos ainda não está clara em todos os estados. Palmer observa que as leis que classificam a IA como “terceira parte, não uma pessoa” estão se aproximando rapidamente em estados progressistas como a Califórnia.
“Em contraste, Ohio está emergindo como um dos estados mais restritivos”, onde em outubro, o representante estadual Thaddeus J. Claggett apresentou um projeto de lei para negar às IAs o direito de personalidade jurídica, classificando-as como “entidades não sencientes” e proibindo “até mesmo o reconhecimento legal simbólico ou tentado de parcerias íntimas entre humanos e IA”.
Impactos nos processos de divórcio
“A lei ainda está se desenvolvendo junto com essas experiências. Mas algumas pessoas pensam nisso como um relacionamento verdadeiro, e às vezes melhor do que um com uma pessoa”, afirma Palmer. A advogada não espera que os tribunais reconheçam legalmente os companheiros de IA como pessoas, mas podem reconhecê-los como “uma razão” para justificar o divórcio.
Na Califórnia, onde vigora o princípio de “sem culpa”, a advogada de direito familiar Elizabeth Yang explica: “Os tribunais não querem ouvir os motivos pelos quais o casamento fracassou. Eles só precisam marcar a caixa que diz diferenças irreconciliáveis. Então, não importa se a infidelidade foi com um bot ou com um humano.”
Um aspecto relevante é o uso indevido de dinheiro. Em estados com regime de bens comuns, como Arizona e Texas, se um parceiro provar que houve desperdício financeiro com pagamentos para um companheiro de IA, isso pode ser decisivo no processo.
Palmer afirma que os juízes já “lutam com o que fazer sobre casos de infidelidade com humanos“, e os companheiros de IA complicarão ainda mais essa questão. A situação se torna mais complexa quando há filhos envolvidos. Em disputas pela guarda, “é concebível e provável que eles questionariam o julgamento dos pais por estarem tendo discussões íntimas com um chatbot”, o que “traz em questão como estão gastando tempo com seu filho.”
Tendências futuras
Yang prevê um aumento nos divórcios nos próximos anos à medida que mais pessoas recorrem à IA para companhia. “Provavelmente veremos um aumento na taxa de pedidos de divórcio. Quando a Covid aconteceu há alguns anos, o aumento nos divórcios foi muito significativo. Provavelmente vimos três vezes a quantidade de divórcios que foram registrados entre 2020 e 2022. Após 2022, quando as coisas voltaram ao normal, as taxas de divórcio caíram novamente. Mas provavelmente voltarão a subir.”
No Reino Unido, por exemplo, o uso de aplicativos de chatbot por um parceiro já se tornou um fator mais comum em divórcios. O serviço Divorce-Online registrou aumento no número de pedidos de divórcio este ano, onde clientes citaram aplicativos como Replika e Anima como causadores de “apego emocional ou romântico.”
Aliás, a Califórnia, nos EUA, aprovou em outubro uma lei que regulamenta chatbots de companhia, com entrada em vigor prevista para janeiro de 2026. A legislação estabelece requisitos específicos para aplicativos de IA, incluindo verificação de idade e lembretes de pausa para menores, além de proibir que chatbots atuem como profissionais de saúde. Empresas que lucram com deepfakes ilegais podem ser multadas em até US$ 250 mil por incidente.
Apesar das divisões que causa entre casais, Palmer ainda vê potencial positivo nos relacionamentos com IA. “Algumas pessoas estão encontrando realização verdadeira”, diz ela, embora alerte que “as pessoas precisam reconhecer as limitações”.
A especialista compara o fenômeno ao impacto das redes sociais: “Poderia ser que um parceiro se conectou com alguém que não via há anos. Ou que existe apenas uma verdadeira necessidade de comunicação. É um caso raro hoje em dia onde as redes sociais não estão envolvidas”. Segundo ela, “E o que estou descobrindo é que a IA está se tornando exatamente isso.”
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