Cientistas querem criar “cofre do gelo” antes que seja tarde

O professor Yoshinori Iizuka, da Universidade de Hokkaido, no Japão, coordena uma pesquisa internacional que analisa amostras de gelo extraídas das Montanhas Pamir, no Tajiquistão. As amostras, que chegaram ao Instituto de Ciência de Baixa Temperatura em novembro de 2025, são estudadas para entender por que os glaciares naquela região resistem ao derretimento acelerado observado em outras partes do mundo.

A equipe extraiu duas colunas de gelo de aproximadamente 105 metros de comprimento do glaciar Kon-Chukurbashi. Uma dessas colunas foi enviada para o Instituto de Ciência de Baixa Temperatura da Universidade de Hokkaido em Sapporo. Enquanto a outra está sendo preservada em um santuário subterrâneo na Antártida, sob responsabilidade da Fundação Ice Memory.

De acordo com oPhys, este trabalho representa um esforço significativo para preservar registros climáticos cruciais antes que desapareçam devido às mudanças climáticas globais.

Pesquisa ganha relevância em contexto de perda acelerada de glaciares

O estudo adquiriu maior importância após a publicação de uma pesquisa na revista Nature Climate Change, na última segunda-feira (15). Isso porque o documento indica que milhares de glaciares desaparecerão anualmente nas próximas décadas. Aliás, apenas uma pequena parte deles permanecerá até o final do século, caso o aquecimento global não seja controlado.

Por outro lado, o fenômeno investigado pelos pesquisadores japoneses é conhecido como “anomalia Pamir-Karakoram”. A região montanhosa do Pamir representa o único local no planeta onde os glaciares não apenas resistiram ao derretimento, mas apresentaram um ligeiro crescimento.

Algumas teorias sugerem que isso pode estar relacionado ao clima frio da região ou ao aumento do uso de água na agricultura no Paquistão, que gera mais vapor atmosférico.

Análise minuciosa em ambiente controlado

Iizuka e sua equipe, que inclui a estudante de pós-graduação Sora Yaginuma, trabalham em instalações com temperaturas de aproximadamente -20°C. Assim, nesse ambiente, eles cortam e analisam cuidadosamente as amostras para determinar densidade, alinhamento dos grãos de neve e estrutura das camadas de gelo.

A expedição ao Tajiquistão foi realizada a uma altitude de 5.810 metros nas Montanhas Pamir, com apoio da Fundação Ice Memory e do Instituto Polar Suíço.

Importância de um “cofre de gelo”

As amostras coletadas podem conter dados valiosos sobre condições climáticas de décadas ou até séculos atrás. Isso porque a proposta dos cientistas é preservar núcleos de gelo como arquivos do clima, guardando assim amostras em condições controladas para pesquisa futura. Na prática, os pesquisadores querem fazer ciência de conservação aplicada ao planeta em aquecimento.

Isso porque cada camada do núcleo de gelo revela diferentes informações: camadas transparentes indicam períodos quentes quando o glaciar derreteu e recongelou; camadas de baixa densidade sugerem neve compactada, permitindo estimar precipitação; e amostras quebradiças com rachaduras indicam queda de neve sobre camadas parcialmente derretidas que recongelaram.

Material de 10.000 anos

Os cientistas esperam que as amostras contenham material datado de 10.000 anos ou mais, embora grande parte do glaciar tenha derretido durante um período quente há cerca de 6.000 anos.

“Se pudéssemos aprender o mecanismo por trás do aumento do volume de gelo lá, então poderíamos aplicar isso a todos os outros glaciares ao redor do mundo”, afirmou Iizuka. “Isso pode ser uma declaração muito ambiciosa. Mas espero que nosso estudo acabe ajudando as pessoas.”

“Informações do passado são cruciais”, disse Iizuka. “Ao entender as causas por trás do acúmulo contínuo de neve do passado até o presente, podemos esclarecer o que acontecerá no futuro e por que o gelo cresceu.”

“Espero realmente que haja gelo antigo”, comentou Iizuka. Segundo ele, o gelo antigo poderia ajudar os cientistas a responder questões como “que tipo de neve estava caindo nesta região há 10.000 anos? O que havia nela?” e “podemos estudar quantas e quais tipos de partículas finas estavam suspensas na atmosfera durante aquela era glacial.”

“Um núcleo de gelo é uma amostra extremamente valiosa e única”, explicou Iizuka. “A partir desse único núcleo de gelo, realizamos uma variedade de análises, tanto químicas quanto físicas.” O cientista descreveu o trabalho como “extremamente empolgante” e afirmou que “podemos aprender como o ambiente da Terra mudou em resposta às atividades humanas.”

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