Pesquisadores da USP treinam IA para ajudar no diagnóstico precoce de câncer bucal

Texto: Vitor Oshiro* / Arte: Daniela Gonçalves**/ Jornal da USP

Se na ficção científica as máquinas inteligentes aparecem quase sempre como uma ameaça mortífera para a humanidade, no mundo real elas têm sido trabalhadas na área da saúde com uma missão diametralmente oposta: salvar vidas. É neste contexto que está uma pesquisa promissora da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) da USP. O estudo busca utilizar inteligência artificial (IA) para auxiliar no diagnóstico do câncer bucal.

“A ideia é criar um software para que o dentista ou o médico tire uma foto com o celular da lesão bucal e o programa diferencie se aquela lesão é potencialmente maligna ou se ela tem um aspecto de benignidade”, projeta Mattheus Siscotto Tobias, autor da pesquisa Redes neurais convolucionais para    diagnóstico clínico de câncer bucal.

O estudo começou a ser desenvolvido no mestrado dele, com orientação do professor da FOB Paulo Sergio da Silva Santos. Agora, o trabalho, que tem parceria da Faculdade de Odontologia (FO) da USP e da Ciência da Computação da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Bauru, segue no doutorado de Mattheus Tobias, de olho na importância do diagnóstico precoce do câncer de boca.

Mattheus Siscotto Tobias – Foto: Arquivo Pessoal

“Dados internacionais apontam que há 400 mil novos casos de câncer bucal por ano no mundo. No Brasil, são de 22 mil a 23 mil novos casos por ano. E, quando falamos de câncer bucal, o diagnóstico precoce é fundamental para diminuir a mortalidade, para a qualidade de vida do paciente e para diminuir custos do sistema de saúde”, destaca Santos.

O professor, que trabalha com pacientes com câncer bucal no Centro de Pesquisa Clínica da FOB e também no Hospital Estadual de Bauru, revela que os casos têm chegado com nível de estadiamento (estágio da doença) muito avançado para o tratamento, o que aumenta consideravelmente o índice de mortalidade. “Diante disso, é fundamental que a Atenção Básica consiga fazer esse diagnóstico de uma maneira mais precoce. Então, nossa ideia é fazer um software que possa ser usado na Atenção Básica para essa finalidade”, complementa.

Homem calvo e de barba, usando camisa social branca
Paulo Sergio da Silva Santos – Foto: Lattes

Substituirá os profissionais?

Sempre que se fala em IA, fica a pergunta: existe o risco de os profissionais serem substituídos por essa tecnologia? Segundo os pesquisadores da FOB, a resposta neste caso é simples e direta: não. A IA seria uma importante aliada dos médicos e dentistas da Atenção Básica nesse processo de diagnóstico.

E esse é o caminho mais razoável que a inteligência artificial – e o uso dela – vem tomando no mundo da ciência. Para o professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP Glauco Arbix, um dos mais influentes pesquisadores da área, é preciso se pensar sempre em “humanos mais máquinas, e não em máquinas no lugar dos humanos”.

“O gênio saiu da lâmpada e não tem como pôr ele de volta. A IA está aí pra ficar. Para o bem e para o mal. O mais razoável é usar a IA e deixar sua marca nela”, ponderou Arbix, em palestra no curso da USP Divulgação Científica para Comunicadores e Jornalistas, uma parceria entre a Escola de Comunicações e Artes (ECA), a Superintendência de Comunicação Social (SCS) e o Instituto de Estudos Avançados (IEA).

Homem com bigode e usando óculos.
Glauco Arbix – Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Rede neural foi treinada analisando banco de imagens de lesões bucais para auxiliar no diagnóstico – Foto: Divulgação

Análises de imagens

E, para “deixar a marca” com a IA de um modo que possa salvar vidas, os pesquisadores da FOB usaram um banco de dados com mais de 6 mil imagens de câncer bucal e outras de lesões não malignas, ensinando a rede neural a diferenciá-las. A partir disso, softwares analisaram todas essas fotografias tentando “acertar” o que era câncer e o que não era. E o resultado impressionou: uma acurácia de cerca de 80%.

Depois de feito esse “aprendizado da máquina” no mestrado, agora, a análise está sendo aprofundada e validada no doutorado. “Pegamos o banco de imagens com lesões malignas e não malignas e submetemos a 50 experts em câncer bucal de todo o Brasil para que eles analisassem o que era câncer e o que não era. Agora, vamos confrontar as respostas dos        experts com as respostas da máquina”, explica o professor da FOB.

A previsão é de que a pesquisa se encerre no segundo semestre de 2026, mas os achados já são considerados muito promissores pelos pesquisadores. Inclusive, já há artigo publicado sobre o trabalho, com boa repercussão, e outros encaminhados para publicações em revistas internacionais.

“Também apresentamos esse nosso estudo em setembro na 29ª Reunião da Academia Iberoamericana de Patologia e Medicina Bucal, na Argentina, e vencemos como melhor pesquisa na categoria pôster”, conclui Tobias. Integram ainda a pesquisa Celso Lemos Junior, da FO, João Paulo Papa, Marcos Cleison Santana e Rafael Gonçalves Pires, da Unesp.

*Jornalista da TV USP Bauru. Reportagem elaborada como trabalho de conclusão do curso Divulgação Científica para Comunicadores e Jornalistas, com informações da palestra disponível no YouTube.

**Estagiária sob orientação de Moisés Dorado

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