IA “gasta água” mesmo? O que os números virais não contam sobre data centers

Um erro de cálculo sobre o consumo hídrico de data centers de inteligência artificial gerou debate entre especialistas e ambientalistas. Karen Hao, autora do livro “Empire of AI”, reconheceu em novembro de 2025 uma falha significativa em suas estimativas sobre um data center do Google próximo a Santiago, no Chile, após questionamentos de Andy Masley, diretor de uma organização de altruísmo efetivo em Washington, nos EUA.

O equívoco estava na afirmação de que a instalação do Google consumiria “mais de mil vezes a quantidade de água consumida por toda a população” da região chilena. De acordo com a Wired, Masley identificou um erro na interpretação das unidades de medida, resultando em uma estimativa mil vezes superior à realidade. Hao admitiu o erro via Twitter e prometeu trabalhar com sua editora para corrigir as informações no livro.

Masley tem dedicado meses a questionar dados sobre o consumo hídrico da IA em seu blog no Substack. Seu principal artigo, intitulado “O Problema da Água na IA é Falso”, ganhou visibilidade após compartilhamento por escritores influentes.

A controvérsia se intensifica em regiões onde a expansão de data centers coincide com crises hídricas. No Chile, o Google interrompeu o projeto mencionado por Hao depois que um tribunal ordenou a reavaliação dos impactos das mudanças climáticas no aquífero local.

Segurança hídrica

Esta semana, mais de 230 grupos ambientalistas enviaram uma carta ao Congresso dos EUA alertando que a IA e os data centers estão “ameaçando a segurança econômica, ambiental, climática e hídrica dos norte-americanos”. Em resposta, a indústria tecnológica começou a se defender das críticas.

Em novembro, os copresidentes da AI Infrastructure Coalition publicaram um artigo de opinião abordando preocupações ambientais. “Uso de água? Mínimo e frequentemente reciclado, menos que os campos de golfe da América”, afirmaram.

Nos data centers, a água resfria principalmente processadores que geram calor intenso durante seu funcionamento. O líquido que absorve o calor é transferido para torres de resfriamento, onde parte evapora.

O data center mais sedento do Google em Iowa, nos EUA, consumiu aproximadamente 2,7 milhões de galões diários em 2024. Para contextualização, cada um dos 16 mil campos de golfe dos Estados Unidos pode usar entre 100.000 e 2 milhões de galões de água por dia.

Além disso, a indústria precisa de mais de 400 galões para produzir um único hambúrguer, enquanto uma camiseta de algodão necessita de mais de 700 galões, por exemplo.

Conta difícil de fechar

A complexidade na medição do uso hídrico torna praticamente impossível isolar os efeitos no nível de um único usuário. Sam Altman, CEO da OpenAI, mencionou em seu blog pessoal no verão de 2025 que uma consulta “média” ao ChatGPT utilizava “aproximadamente um quinze avos de uma colher de chá” de água, sem esclarecer detalhes fundamentais sobre essa estimativa.

O professor Fengqi You, da Cornell, contextualiza a situação: “No curto prazo, não é uma preocupação e não é uma crise nacional. Mas depende da localização. Em locais que já enfrentam estresse hídrico, a construção desses data centers de IA vai ser um grande problema.”

Jonathan Koomey, pesquisador de computação, complementa: “Não é algo que você possa simplesmente ignorar. Cada situação deve ser avaliada no contexto do design específico da instalação que está sendo proposta. Você simplesmente não pode dizer a priori que nunca é um problema.”

Além disso, Koomey também observa que “parte do que estamos vendo com a água é que as regras, as normas e os preços são estabelecidos com base em uma realidade anterior. Ou seja, tudo isso volta à questão: qual é o valor do serviço que está sendo entregue?”

Masley, que não se considera especialista no tema, compartilha experiências pessoais: “Eu às vezes mencionava que usava ChatGPT em festas, e as pessoas diziam: ‘Oh, isso usa tanta energia e água. Como você pode usar isso?’ Eu ficava um pouco surpreso quando as pessoas falavam tão sombriamente sobre apenas um pouco de água.”

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