O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) alertou sobre o potencial da inteligência artificial (IA) em aumentar a desigualdade entre países desenvolvidos e em desenvolvimento. O relatório foi divulgado nesta terça-feira (2) pela organização.
A análise compara o cenário atual com a “Grande Divergência” ocorrida durante a revolução industrial, quando países ocidentais avançaram enquanto outros permaneceram estagnados.
O documento indica que os principais benefícios da IA tendem a ser aproveitados majoritariamente por nações desenvolvidas caso medidas adequadas não sejam adotadas. Por isso, o estudo enfatiza que, além do impacto na produtividade e crescimento econômico, é necessário avaliar as consequências dessa tecnologia para a vida humana.
Populações vulneráveis enfrentam maior risco de exclusão
Comunidades com acesso limitado a recursos tecnológicos, eletricidade e internet estão particularmente vulneráveis à exclusão digital. Além disso, idosos e pessoas deslocadas por conflitos ou desastres climáticos também enfrentam riscos significativos.
Esse fenômeno ocorre porque essas populações são “invisíveis” nas bases de dados para treinamento de sistemas de IA. Como resultado, cria-se um ciclo de exclusão que pode se perpetuar com o avanço tecnológico.
As Nações Unidas identificam que diferentes grupos populacionais serão afetados de forma desproporcional pelo impacto da IA. Enquanto algumas comunidades não possuem infraestrutura básica para participar da revolução digital, outras enfrentam desafios relacionados à privacidade, segurança cibernética e desinformação, como os deepfakes.
Disparidades regionais na adoção da tecnologia
Na região Ásia-Pacífico, aproximadamente 25% da população não possui acesso à internet, conforme dados apresentados no documento. O estudo aponta que países como China, Japão, Coreia do Sul e Singapura estão bem posicionados para aproveitar as ferramentas de IA. Em contrapartida, nações como Afeganistão, Maldivas e Mianmar enfrentam limitações significativas em termos de habilidades técnicas e infraestrutura.
O relatório também destaca a existência de disparidades regionais dentro dos próprios países. Isso significa que mesmo em economias avançadas, certas áreas podem ficar excluídas dos benefícios da IA.
A publicação do PNUD surge em um momento de crescente debate global sobre como regular e direcionar o desenvolvimento da inteligência artificial para benefício coletivo. Atualmente, governos e organizações internacionais buscam estabelecer diretrizes para o uso ético dessa tecnologia.
Potencial positivo da IA quando bem direcionada
“Como uma tecnologia de uso geral, a IA pode aumentar a produtividade, impulsionar novas indústrias e ajudar os retardatários a alcançarem a concorrência”, diz o relatório.
O documento também ressalta aplicações benéficas da IA para comunidades vulneráveis: “sistemas de IA que analisam a pobreza, a saúde e os riscos de desastres permitem decisões mais rápidas, justas e transparentes, transformando dados em aprendizado contínuo e valor público”.
Apesar desse potencial, o relatório adverte que, sem intervenções apropriadas, milhões de pessoas poderão ficar “à margem de uma economia global impulsionada pela inteligência artificial”. Indivíduos sem acesso a dispositivos, sistemas de pagamento digital, identidades eletrônicas e educação necessária para participar plenamente da economia digital devem ser os mais impactados.
“A inteligência artificial está se tornando a próxima infraestrutura essencial da região, como energia, estradas e escolas, com benefícios mais rápidos e riscos mais acentuados”, alerta o documento, que classifica alguns sistemas de IA como “caixas-pretas” devido à falta de transparência em seu funcionamento.
O objetivo, segundo o relatório, “é democratizar o acesso à IA para que todos os países e comunidades possam se beneficiar, protegendo ao mesmo tempo aqueles que estão mais vulneráveis.”
Ainda não está claro como os governos responderão às recomendações do PNUD ou quais medidas específicas serão implementadas para garantir uma distribuição mais equitativa dos benefícios da inteligência artificial.
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