A sensibilidade além da revolução: Dados e tecnologia transformaram o scouting, mas o olhar humano segue essencial

Não faz muito tempo em que os olheiros de clubes de futebol, mesmo dos grandes, tinham vias limitadas para observar possíveis contratações. Pela ideia clássica que se tem dessa profissão, eles dirigiriam por centenas de quilômetros até um jogo obscuro de divisões inferiores para se sentar na arquibancada, com boné e óculos escuros para dar uma disfarçada, na esperança de encontrar o próximo Lionel Messi com a camisa 10 do Arsenal de Sarandí. Hoje em dia, eles podem fazer a mesma coisa jogados no sofá em uma noite de domingo com o laptop no colo. 

O acesso à internet já foi uma revolução. Ficou bem mais fácil acessar informações de jogadores de outros países e mesmo de campeonatos mais periféricos do Brasil. De repente, muitos deles estavam todas as semanas na televisão. As principais ligas entraram na programação para nunca mais sair. As competições europeias oferecem a oportunidade de assistir a um Estrela Vermelha ou um Club Brugge de vez em quando. Houve um momento em que até o futebol do Azerbaijão e da Eslovênia estavam a um clique de distância. 

A grande ideia foi juntar as duas coisas: plataformas que oferecem vídeos, clipes, informações, dados e estatísticas se tornaram ferramentas obrigatórias. Mas sem perder de vista como a avaliação humana permanece sendo essencial. Não há revolução dos números e da tecnologia sem a sensibilidade do olhar. Por mais que se democratize o acesso a uma infinidade de jogadores, em diversas partes do mundo, a constatação do talento depende de quem o perceberá. É essa a história que o time da Superbet, plataforma de apostas esportivas, vai contar.

 

A Blockbuster do futebol 

A plataforma mais famosa é o WyScout, uma empresa italiana fundada em 2004 que funciona como uma espécie de videolocadora que armazena as partidas dos jogadores e oferece o conteúdo de maneiras diferentes. Tem uma aba com competições e divisões de dezenas de países. O olheiro pode escolher assistir à partida inteira ou clipes apenas do atleta que ele está observando, com ações ofensivas ou defensivas, ou o tempo útil: quando a bola está rolando, cortando paradas ou substituições. Existem outras, como o Eyeball, mais focada em categorias de base. 

Frederico Fortes, olheiro internacional do inglês Norwich para a América do Sul, teve seu primeiro contato com o WyScout quando começou a trabalhar no Juventude, em 2016, mais ou menos na época em que a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) fechou um acordo com a plataforma para oferecê-la a todos os clubes das Séries A, B, C e D. “Antigamente, todos os nomes que chegavam eram enviados por agentes. Não existiam ferramentas para você fazer um monitoramento dos atletas”, afirma em conversa com o time Superbet. “Hoje nós temos. Sabemos todos os jogadores disponíveis em todos os mercados, os que realmente têm qualidade e podem ajudar o clube”.

Essa democratização no acesso, porém, não basta. O olheiro também precisa saber quem observar. Ainda pode partir de recomendações de empresários, dicas de uma rede de contatos que construiu ao longo da carreira ou alguém que chamou a sua atenção enquanto observava outro jogador. Ou construir filtros, métricas e critérios com base em dados e estatísticas. Parte das plataformas permite determinar parâmetros para que se busque o jogador ideal com base em seus números, visando um melhor encaixe nas necessidades e no estilo de jogo do time. Se a equipe quer um volante passador ou destruidor, é possível refinar essa procura. 

O uso de estatísticas no futebol costuma ser imediatamente associado à prática do Moneyball, uma estratégia consagrada pelo Oakland Athletics, time de beisebol da Califórnia, que usou dados para encontrar ineficiências de mercado e jogadores sub-valorizados para competir contra orçamentos muito maiores que o seu. Deu tão certo que, alguns anos depois, essa metodologia inspirou o Boston Red Sox, com mais grana no bolso, a quebrar um jejum de 86 anos sem títulos da Major League Baseball (MLB), principal liga do esporte nos Estados Unidos. 

O futebol chegou um pouco tarde ao mundo dos dados. Para se ter uma ideia, a revolução do Oakland Athletics começou em 1997. Três anos antes, houve a primeira Copa do Mundo que computou oficialmente as assistências, segunda estatística mais básica depois dos gols. Por ser um esporte de menos repetições, mais dinamismo e com pontuações baixas, as estatísticas precisam ser lidas de maneiras diferentes no futebol do que no beisebol ou no basquete. Não há necessariamente a descoberta de “talentos ocultos no mercado”, como o contexto também é importante e as estatísticas precisam ser lidas dentro da realidade de cada nível competitivo, mas os dados podem agir como reforçadores de uma contratação ou indicar caminhos.

Os modelos foram evoluindo com o tempo ao ponto de, hoje em dia, clubes de ligas importantes basearem toda a sua abordagem em análises de dados. Dois grandes exemplos são o Brentford e o Brighton, clubes ingleses que, não por coincidência, são propriedade de empresários que construíram suas fortunas no mercado de apostas, no qual as estatísticas são fundamentais para encontrar valor ou identificar cotações sub-valorizadas. Aplicando a mesma lógica ao futebol, conseguem contratar jogadores que não estão necessariamente no radar dos clubes mais ricos.

Essa é uma abordagem mais radical, mas a maioria dos clubes bem estruturados tem um departamento de análise de dados que trabalha em conjunto com o de observação para recomendar contratações ao responsável por tomar as decisões. O trabalho dos olheiros não é identificar se um jogador é bom ou não. Isso qualquer um que vê muito futebol sabe fazer. A magia é entender por que ele é bom e como ele se encaixa no estilo de jogo da equipe.

 

Como as estatísticas direcionam o olhar

As estatísticas não são uma varinha mágica, mas servem de guia e, principalmente, de filtro. Frederico Fortes, por exemplo, sempre começa por elas. Ele tem alguns parâmetros, estabelecidos a partir da filosofia de jogo do Norwich, que acabam gerando uma linha de corte. “Eu faço uma lista com todos os jogadores que se enquadram nesses números por posição e vou cortando, vendo quem tem os índices maiores, os melhores números e, com isso, eu chego em uma lista final com 15 ou 20 nomes por posição”, explica. 

As métricas que são consideradas variam de acordo com o campeonato, a posição e mesmo com o estilo de jogo do treinador. Para atuar na Premier League, famosa pela intensidade física, é importante ter altos índices de pique, velocidade, intensidade e pressão. Esse último, por outro lado, não é tão importante na hora de decidir sobre a contratação de um jogador que atuará em um time que defende com linha baixa – ou seja, recuado na defesa, sem tentar roubar a bola no campo do adversário. Os modelos mais eficientes sabem calcular que qualidade de finalização não é tão importante quando se está avaliando um zagueiro. 

O WyScout fornece algumas estatísticas, mas elas não são tão profundas quanto as de outras plataformas como a Stats Bomb e a Skill Corner. E no fim das contas, as duas ferramentas andam juntas. O olheiro ou o analista de dados mergulha nos números e encontra um jogador que cumpre os parâmetros necessários. Em seguida, ele procura os vídeos desse jogador para qualificar e validar aquelas métricas. O atacante tem uma média de oito dribles. Mas eles estão na defesa ou no ataque? Para trás ou para frente? O meia tem um alto aproveitamento de passe, mas quantos realmente progrediram a jogada? Quantos foram sob pressão? 

O processo não é impecável. Fortes lembra uma vez que estava observando um jogador e outro do mesmo time chamou bastante a sua atenção. Quando checou, percebeu que ele não havia entrado em sua lista inicial quando estava computando os números. “Fui investigar e vi que ele tinha tido uma lesão muito séria. Isso com certeza interferiu na performance dele durante um tempo”, diz. “Por isso, precisamos realmente confiar nessas empresas de scout porque elas podem passar uma informação que não é muito fidedigna”. 

No fim, aquele jogador acabou não passando pela nota de corte. Outro, no entanto, estava muito bem dentro do universo dos números, mas acabou sendo descartado na análise de vídeo e não entrou na lista final. “É um jogador que não está tendo uma carreira brilhante, nem está em uma liga top, mas é bom, com boa qualidade técnica e de interpretação de jogo. Tem seus 22, 23 anos e ainda tem margem (para melhorar). Entendo que pode chegar a uma liga importante”, conta.

A observação in loco continua fazendo parte desse processo. Agora, ela passou para o final. Depois de uma filtragem a partir das estatísticas e da análise de vídeo, os clubes mandam seus olheiros para observar o jogador, com o propósito de confirmar algumas impressões, assistir ao seu comportamento sem a bola, como ele interage com os companheiros e como lida com a pressão de um jogo fora de casa. Uma variedade de aspectos tão importantes quanto a taxa de desarmes e aproveitamento de finalizações que os números são incapazes de medir. 

“Pela minha experiência, para contratar um jogador, o clube precisa vê-lo em campo. Uma, duas, três, quatro vezes, em situações diferentes”, afirma Fortes.  “Não podemos nos basear apenas nas estatísticas. O scout antigo que vai ao campo com o caderninho e fica ali fazendo anotações é muito válido e, para mim, uma das etapas mais importantes do processo”.

 

A realidade no Brasil profundo da Série D

Se por um lado as ferramentas de análise de desempenho oferecem uma infinidade de dados e trazem cenários bem mais apurados, as informações se tornam mais escassas à medida em que se afasta da elite do futebol. A sensibilidade do analista e do olheiro na avaliação dos atletas ganha mais peso em realidades mais modestas, como na quarta divisão do Campeonato Brasileiro. Pode-se falar na democratização das plataformas, com a CBF integrando o WyScout às divisões nacionais, mas isso por si não basta quando o trabalho é muito mais amplo que apenas o mero acesso ao software.

A Série D de 2025 reuniu em sua final dois clubes bastante distintos, que ajudam a entender as especificidades na utilização dos dados de desempenho. O campeão foi o Barra, clube de Balneário Camboriú fundado em 2013 e que, desde suas origens, possui um modelo de gestão empresarial. Entre os pilares da equipe catarinense está o desenvolvimento de jogadores e a capacidade formativa. A estrutura é voltada para oferecer as melhores ferramentas para o cumprimento de objetivos. A tecnologia na análise integra este alicerce.

“O Barra é um clube novo, extremamente organizado, que já nasce empresa. E o nosso dia a dia de trabalho é sempre pautado por resultados numa linha empresarial”, avalia Jeferson Ramos, gerente de mercado do Barra. “Se a gente vai trazer para a minha área, em específico, eu nunca tive um empecilho em relação a algo que eu considero importante. Se eu tenho uma argumentação suficiente para convencer o meu executivo e os nossos gestores de que ter o WyScout é importante, o clube vai fornecer o WyScout”.

Há três anos no clube de Balneário Camboriú, Ramos possui experiências anteriores em mais de uma dezena de equipes do Brasil, em todos os níveis de competição, exceto a Série A. Trabalhou em seis estados diferentes do país. Segundo a sua análise, pela organização e pela seriedade, o que ele vivencia no Barra é distante do experimentado nas demais agremiações pelas quais passou. Um apoio que potencializa as chances de sucesso, ainda que no futebol não existam fórmulas infalíveis.

“Eu acredito que, quando se tem ciência e quando se trabalha de forma organizada, a chance das coisas acontecerem se torna maior. Eu volto a falar, nem sempre você vai fazer tudo certo e vai dar certo. Mas eu percebo que, quando você tem um ambiente que te propicia uma tranquilidade para desenvolver o seu trabalho, e aí vamos transferir aos atletas, todos enxergam o Barra com bons olhos, todos querem estar no Barra”, analisa.

Se por um lado o Barra possui um modelo bastante específico de gestão, seu adversário na final da Série D foi um clube de dimensões totalmente diferentes – e muito maiores. O gigante Santa Cruz possui mais de um século de tradição em Recife e um histórico de conquistas que vai além de Pernambuco, com inúmeras participações na elite do Campeonato Brasileiro. Apesar dos anos recentes de penúria nas divisões de acesso, um patamar aquém da grandeza tricolor, o clube deu passos importantes em sua reconstrução em busca da Série C. Também se escorou na busca da excelência na análise de informações para impulsionar os resultados em campo.

O responsável pelo setor no Santa Cruz é Paulo Henrique Cordeiro, coordenador do departamento de análise de desempenho e mercado. Enquanto este trabalho no Barra se divide entre dois profissionais, Cordeiro centraliza as funções no clube pernambucano. Por ter que fazer a análise de desempenho e também apontar potenciais reforços no mercado, ele enfatiza como precisa ser objetivo em uma tarefa árdua – “na profissão que mais assiste a jogos no mundo”, brinca. Formado em educação física, o coordenador do Santa se especializou em análise de desempenho através do curso oferecido pela CBF e acumulou experiências em clubes de seis estados do Brasil, de diferentes divisões.

“A gente sabe que é um clube que está se reestruturando, que passou por um momento difícil, inclusive sem calendário nacional no ano passado. A gente vem para começar essa transição. Não foi um trabalho fácil. A área tem muitas vertentes. Para uma pessoa só dividir desempenho e mercado é muito difícil. A gente consegue ser o mais objetivo, mais consciente possível, para levar as informações”, aponta.

Com passagens pelo Santa Cruz em diferentes momentos de sua carreira, Cordeiro experimentou a realidade do rebaixamento antes do acesso conquistado nesta temporada. Mais do que a competência no trabalho de análise de desempenho, para ele, a organização dos clubes e a gestão do departamento de futebol impulsionam o sucesso de uma campanha. Uma mudança de técnico em meio a uma crise, por exemplo, sem levar em conta o perfil do elenco montado antes da chegada do próximo treinador, pode atrapalhar a linha de contratações adotada no mercado.

Além disso, para Paulo Henrique Cordeiro, estar distante da elite do futebol diminui a margem de acerto no mercado de transferências. “Na Série D é muito mais fácil você errar, porque são jogadores que estão num nível menor. Não tem tanta minutagem profissional, você é mais suscetível ao erro do que na Série A”, assinala.

 

A solidariedade entre clubes permitiu a análise na Série D

Nem sempre há acesso total aos dados das competições no Brasil. Mesmo as plataformas mais populares, como o WyScout, não garantem uma amplitude de vídeos. Há entraves em relação aos direitos de transmissão e de acesso aos rincões do país. Na quarta divisão do Campeonato Brasileiro, surgiu uma rede de colaboração entre os profissionais dos clubes para driblar a escassez de vídeos nas plataformas e democratizar as informações na análise de desempenho.

Por conta de uma indefinição inicial sobre os direitos de transmissão na Série D, os jogos estavam indisponíveis nas principais plataformas de vídeo. Então, os próprios profissionais encontraram uma forma criativa de driblar as limitações e democratizar o acesso: montaram um grupo de WhatsApp entre si para compartilhar os vídeos das partidas e garantir que cada um pudesse fazer seu trabalho. A competitividade não significa boicotes, muito pelo contrário, quando há um networking como em qualquer outra profissão.

“A gente sabe que, de uma forma ou de outra, não tem como guardar aquele material. O nosso adversário vai conseguir achar o material para assistir. Hoje em dia, nesse mundo globalizado, é muito difícil esconder informação”, afirma Paulo Henrique Cordeiro. Os analistas de cada clube filmavam os jogos de seu respectivo time com câmeras abertas e disponibilizavam através do WhatsApp para que os demais acessassem.

Cordeiro se disse positivamente surpreso pela presença de analistas de desempenho na maior parte dos clubes da Série D. Segundo o profissional do Santa Cruz, suas expectativas não eram tão altas e ele temeu dificuldades no compartilhamento desses vídeos, mas seis dos oito times de seu grupo na primeira fase da competição contavam com departamentos de análise minimamente estruturados. Ainda assim, ele enfatiza como há uma diferença ao redor do Brasil, com clubes do Sul e do Sudeste com melhores condições do que em certas regiões do Norte e do Nordeste.

Jeferson Ramos, do Barra, também participou do compartilhamento de imagens no grupo de WhatsApp. “Na Série D, se não houvesse esse trabalho de cooperação entre os profissionais, com toda a certeza a nossa área teria muitas dificuldades. Às vezes até tem a transmissão, mas a plataforma não cobre, não tem os direitos. Acaba ficando muito difícil de conseguir informações mais palpáveis, filtros. Você acaba tendo um trabalho maior. Você vai ver jogos, fazer recortes, construir essa base de dados. De fato, é um trabalho que exige uma demanda maior dos profissionais para que possa ter uma assertividade”.

Apesar de constatar essa defasagem na Série D, Ramos vê um cenário animador de ampliação das coberturas dos softwares. Segundo ele, certas plataformas estão fazendo um trabalho  para que se tenha, nos próximos anos, uma cobertura maior das divisões inferiores. O investimento maior nos clubes do interior e o advento das SAF’s, as Sociedades Anônimas do Futebol, que seguem um modelo empresarial, motivariam este movimento dos softwares.

 

Quando as plataformas não chegam tão a fundo

Projetar o Moneyball no beisebol é mais simples do que seria no futebol. No caso da Major League Baseball (MLB), as estatísticas se inserem num contexto competitivo padronizado. O futebol é bastante distinto neste sentido. Cada país possui seu próprio estilo de jogo, o que tem repercussões nas estatísticas e em sua leitura. E cada país também conta com sua própria pirâmide de campeonatos, com distintas divisões nacionais – no caso do Brasil, com a especificidade dos estaduais.

E se a descoberta de talentos para uma competição, tantas vezes, depende de observar potenciais reforços em divisões inferiores, a Série D precisa cavar fundo. Boa parte dos alvos no mercado da Série A são jogadores de clubes da Série B ou de outros campeonatos nacionais da América do Sul, todos disponíveis no WyScout. No caso da quarta divisão nacional, a necessidade é procurar até nas segundas divisões estaduais e nas copas estaduais, que não têm a mesma cobertura das plataformas. É uma tarefa que depende bem mais do esforço e do compromisso de ver os jogos.

Paulo Henrique Cordeiro detalha como a Série D exige minúcia do Santa Cruz em busca de seus potenciais reforços. O coordenador tricolor possui seu próprio banco de dados, alimentado a partir dos quatro ou cinco jogos que vê por dia. Tais análises são compartilhadas com o treinador e outros responsáveis pelo departamento de futebol, em busca de contratações. 

“Sempre quando a gente vai enfrentar um adversário e vê um jogador potencial para o nosso modelo de jogo, já anota lá no banco de dados. Vai deixando tudo certinho para, quando precisar, já ter o alvo para ir atrás”, relata. “De conhecer muito o mercado, como a gente trabalha em muitos jogos por ano, vai anotando cada jogador e vai atrás de informações”. Para Cordeiro, quando à disposição, os softwares possuem uma função quantitativa e qualitativa. Trazem estatísticas que mensuram o desempenho e também vídeos que permitem a avaliação – sem se prender aos “melhores momentos” oferecidos por agentes de atletas. O coordenador do Santa Cruz une essas informações às anotações acumuladas pelos muitos jogos que assiste.

O mesmo ocorre no Barra. O trabalho de Jeferson Ramos na análise de mercado usa as plataformas como um suporte. Os dados são subsídios que garantem informações e orientam caminhos. “A ferramenta não toma decisão sozinha”, ressalta Jeferson Ramos à Superbet. E as decisões são tomadas de maneira conjunta, com participação de outros profissionais, como o treinador e o executivo de futebol. Os dados gerados indicam direções, traçadas a partir do diálogo e do consenso sobre o melhor para o clube.

E isso mesmo com uma capacidade tecnológica singular por trás do Barra. O time catarinense está inserido em uma estrutura administrativa que, entre outros clubes, inclui particularmente o Hoffenheim na ponta do processo. O clube alemão teve uma ascensão meteórica neste século muito por conta de sua capacidade de identificar talentos e desenvolver jogadores, com auxílio das bases de informação. Torcedor dos alviazuis e grande financiador de seu projeto, o empresário Dietmar Hopp é, além de proprietário do Hoffe, também um dos fundadores da SAP – uma das maiores desenvolvedoras de softwares do planeta. Desta maneira, o Barra se coloca num contexto favorável à tecnologia de análise.

Segundo Ramos, o Hoffenheim garante mais apoio ao Barra nas categorias de base e no setor formativo do que no futebol profissional. Alguns responsáveis pela parte técnica do clube alemão vão a Santa Catarina e promovem integrações, no intuito de revelar talentos. Ainda assim, o gerente de mercado salienta como a tecnologia está no foco dos clubes que integram a estrutura – além do Hoffenheim e do Barra, também o Académico de Viseu, em Portugal. “Temos algumas ferramentas internas que utilizamos, que fazem parte dos processos do clube. Mas muito mais voltado ao processo formativo. Algumas plataformas são utilizadas para a gestão do clube como um todo”, detalha.

E o telefone ainda é uma tecnologia primordial

É importante notar também como as informações dos softwares de futebol não abrangem todos os aspectos necessários para se avaliar a contratação de um jogador. Há questões psicológicas, disciplinares e de relacionamento que dependem muito mais de um trabalho de campo, na coleta de informações.

O Barra possui drivers de controle, que servem de parâmetro para o que se deseja de um futebolista. O histórico de lesão, a lista de conquistas e as situações extracampo também contam. Para apurar essas informações, o boca a boca é bem mais importante. “Eu vejo que muitas vezes a gente acaba se prendendo no software, se prendendo no vídeo, mas esquece de pegar o telefone e ligar”, explica Jeferson Ramos. “O mais importante, na minha visão, é que a gente possa ter um perfil traçado e que esteja associado com a cultura do clube, o modelo de jogo a ser implementado pelo treinador. O Barra é um clube que acredita muito nos processos, acredita muito na organização”.

A montagem do elenco campeão da Série D, especificamente, se centrou em três correntes principais. O Barra buscou jogadores que já tivessem experiência em divisões nacionais e currículo vitorioso, para que auxiliassem os jovens com potencial (tanto os formados pela base quanto os identificados em outros clubes) e também aqueles atletas há mais tempo dentro do grupo, que carregam a história do time catarinense. A missão do gerente de mercado está em apontar potenciais reforços, que se encaixam tanto nos controles internos quanto nas necessidades táticas e técnicas da equipe.

Essa apuração sobre o extracampo não difere do trabalho realizado por Paulo Henrique Cordeiro no Santa Cruz. O coordenador do clube pernambucano também se vale da sua rede de contatos para saber mais sobre um jogador, conversando com outros profissionais da área e antigos colegas. São informações valiosíssimas que não estão à disposição nas plataformas e que também não transparecem ao somente assistir aos jogos.

“É tudo uma soma de fatores. Tem tanto a parte da tecnologia, onde a gente está usando o software que nos ajuda, mas também não pode deixar de lado a questão de pegar informações. Vamos ver um exemplo assim: um jogador é muito bom tecnicamente, mas pode não ser tão interessante em questões de grupo, questões extracampo. Isso não vai ter no WyScout, no SofaScore. A gente tenta unir todas essas duas coisas, a tecnologia com as informações do mercado”, explica.

Até pela demanda de se coletar as informações além do que as plataformas já entregam apurado, Cordeiro traça uma ampliação de seu setor após o acesso do Santa Cruz para a Série C.  Ao menos mais um analista tende a chegar, enquanto o ideal na sua visão seriam três. É preciso ir passo a passo e entender o momento de reformulação do clube. “A Série C também não é uma divisão ideal para o Santa, a gente tem que trabalhar com o que o clube pode oferecer”, destaca. Os softwares, mesmo poupando tempo, não substituem o conhecimento profissional. Quanto mais gente para observar e debater, melhor.

A meta de expansão é similar ao Barra. Jeferson Ramos assinala que o clube manterá sua filosofia “passo a passo, pés no chão”. Apesar de uma visão externa como um “clube rico, com investimento externo”, uma pesquisa de mercado apontou que os catarinenses não se aproximam das maiores folhas salariais da Série C. O plano é seguir em busca de jogadores com o desejo de crescer. “E no que diz respeito a investimentos internos estruturais, o Barra aí sim segue crescendo, se desenvolvendo”, aponta, ao enfatizar que seu departamento deve ganhar mais dois profissionais, além dos dois atuais. “O futebol tem memória curta. Você conquistou hoje, mas amanhã tem que conquistar de novo e ter tranquilidade para tentar fazer as melhores escolhas”.

O olhar de um pentacampeão

Se por um lado a revolução tecnológica é inegável, adaptada aos novos tempos da globalização e da informatização do futebol, isso não significa que todas as soluções são garantidas. Como visto, o software pode indicar qual o melhor encaixe de um jogador, mas as variáveis humanas demandam sensibilidade. É como avalia o lendário Cafu, cuja notória ascensão no futebol só aconteceu após seguidas reprovações em peneiras. Mesmo para ele, se as ferramentas de análise de desempenho existissem antes, isso não seria garantia de uma trajetória distinta para si.

“É evidente que hoje as ferramentas e os profissionais que trabalham com dados conseguem identificar coisas que na minha época não eram possíveis de forma tão precoce. Mas não consigo afirmar que meus atributos poderiam ser percebidos antes. Eu comecei a jogar como profissional pelo São Paulo muito cedo e logo virei titular, então acredito que tudo aconteceu no tempo certo”, analisou o ex-lateral em entrevista ao time Superbet.

As estatísticas são capazes de quantificar o número de dribles executados por um jogador dentro de campo. Também é possível estabelecer variáveis, que apontam a efetividade das ações. Ainda assim, o impacto de um elástico precisa ser qualificado por quem saiba observar a jogada dentro de seu contexto e diante de sua beleza – seja no corte de vídeo garantido pelo software ou não.

“Quando você pega um menino muito novo, você não sabe se realmente ele vai dar sequência na carreira dele ou não. Mas quando você vê um menino bem posicionado dentro de campo, você vê ele batendo na bola, você vê ele de cabeça erguida, já são algumas características que te chamam a atenção dentro de campo”, aponta Cafu. “Nós já perdemos algumas dessas jovens promessas porque o scout muitas vezes não vê algumas características do jogador. Uma bela caneta, um chapéu de carretilha, um drible da vaca, um olé, enfim, isso realmente tem que voltar a fazer parte do nosso futebol”.

O nível de detalhamento, além do mais, não transforma a noção de talento dentro de campo. Podem existir parâmetros novos e uma lupa para se corrigir cada movimento. O encantamento provocado por um craque, porém, é independente das estatísticas que passaram a pulular.

“Concordo que o futebol mudou nos últimos anos, mas não acho que o tipo de jogador de sucesso hoje em dia seja diferente do de vinte anos atrás. O talento dos atletas é o mesmo, eles só se adaptam às novas formas de jogar futebol”, ressalta Cafu. “Tive a felicidade de jogar ao lado de muitos craques, tanto nos times como na Seleção Brasileira. Acho que independentemente da época, todos eles teriam espaço no futebol de hoje e com grande destaque. O talento é imbatível”.

Para um especialista em peneiras, há tipos de desafios que são insubstituíveis na hora de perceber a aptidão de uma promessa: “Acho que as peneiras tinham algumas etapas de dificuldade mais imediatas que exigiam do jogador um esforço completo para mostrar tudo o que sabia. Hoje isso já mudou um pouco”.

Cafu, inclusive, apontou o que seria mais importante de identificar em um jogador, se o ex-lateral pudesse criar uma ferramenta para montar um time: “A vontade que esses jogadores têm de jogar futebol. Acho que a primeira ferramenta, o primeiro olhar, é saber se o menino ama, é apaixonado e quer realmente jogar futebol ou se ele está lá porque alguém pediu para que ele estivesse lá. Isso muda muito”. Por enquanto, ainda não há máquina possível que quantifique a paixão pela bola.

E como as ferramentas de análise de desempenho podem auxiliar os próprios jogadores a atingirem novos patamares? Quais as novas fronteiras do negócio, nas quais quem vê de fora pode utilizar as estatísticas para investimentos e cálculo de odds? É o que tratará a segunda parte da reportagem, também publicada pela equipe da Superbet.

 

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