O principal local de reprodução da febre amarela é o fígado, fazendo com que a doença seja considerada hepática. Todavia, um estudo guiado por pesquisadores da Universidade de São Paulo e da Universidade de Wisconsin-Madison analisou as características extra-hepáticas da doença, com foco para a hemorragia intestinal na “fase de intoxicação” da febre amarela.
O professor Amaro Nunes Duarte, do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da USP e do Laboratório de Helmintologia do Instituto de Medicina Tropical, explica a origem do estudo. Segundo ele, com a epidemia de febre amarela em 2018 e 2019, a vinda de casos da moléstia para o Hospital das Clínicas e para o Hospital Emílio Ribas facilitou a observação dos mesmos. “Ficou muito evidente para todos nós, todos os grupos que foram envolvidos com o cuidado desses pacientes, que a febre amarela não afeta apenas o fígado. Ela afeta também o coração, o cérebro, o rim, o sistema imune, os pulmões e agora nós nos debruçamos em estudar o intestino.”
A fase de intoxicação é a mais grave da doença, aquela em que aparecem as complicações que podem levar à morte. Costuma ocorrer depois de uma breve melhora clínica e acomete entre 15% a 25% dos pacientes que contraem a febre amarela. Os principais eventos dessa fase são a icterícia (pele amarelada), lesão hepática, hemorragias internas e “vômito negro”.
Estudo
Os resultados do estudo mostram que, com a progressão da infecção da febre amarela, se observa uma progressiva isquemia dos intestinos. A isquemia seria a diminuição do fluxo sanguíneo, causando progressivamente uma hemorragia na mucosa e permitindo que bactérias do interior do intestino entrem na corrente sanguínea. O resultado desse processo é que, quando as bactérias atingem o fígado, elas causam uma infecção sistêmica generalizada— ou sepse—, agravando o quadro viral inicial causado pelo vírus. “Tanto nos casos dos pacientes quanto no modelo experimental, nós observamos um progressivo aumento desses produtos de bactérias na corrente sanguínea no próprio fígado. Um aumento da contagem de neutrófilos no sangue periférico, que é o marcador de que ocorre essa sepse. É um quadro muito grave, praticamente sem reversão, portanto, leva à morte”, completa Duarte.
O trabalho de pesquisa foi realizado em duas frentes: no Brasil foram avaliados os casos de pacientes em admissão hospitalar e as autópsias nos casos de febre amarela. Nos Estados Unidos, foram realizados os exames no modelo experimental. “Com o grupo da clínica, foram coletadas amostras na admissão hospitalar. Eu examinei, junto com outros professores da patologia, a autópsia desses pacientes. Nesse meio termo, fica um gap, que foi preenchido com o modelo experimental. Evolutivamente, foi observado nesse animal, o hamster infectado pelo vírus da febre amarela, essa alteração progressiva nos intestinos, além da lesão hepática em outros órgãos,” explica Duarte.
Como método de tratamento e prevenção da isquemia intestinal, procuram-se alternativas que mantenham a hidratação dos tecidos da região de forma a prevenir então a sepse secundária.
Sintomas da febre amarela
Nos primeiros dias, os sintomas da febre amarela costumam ser inespecíficos e facilmente confundidos com os de outras infecções. Febre alta súbita, cefaleia, dores musculares, dor abdominal, náuseas e vômitos sem sangue. A fase inicial pode durar alguns dias e, em muitos casos, evolui para uma melhora aparente, quando a febre diminui e o quadro parece caminhar para a recuperação.
Em parte dos pacientes, a melhora é seguida de uma piora abrupta, a fase tóxica da doença. Nessa etapa, o corpo começa a apresentar sinais de infecção generalizada. A temperatura cai, surge suor intenso e grande prostração, o paciente pode começar a vomitar sangue em grande quantidade, uma das marcas da forma grave da febre amarela. A icterícia se intensifica, deixando a pele e os olhos amarelados por causa da lesão hepática. Há risco de coma hepático, convulsões e falência múltipla de órgãos, atingindo fígado, rins, intestinos e coração. Em alguns pacientes, o transplante de fígado pode representar uma chance de sobrevivência, mas o sucesso depende do momento em que o procedimento é realizado: quando já há hemorragias intensas e infecções secundárias, o prognóstico tende a ser desfavorável, mesmo com a intervenção.
Jornal da USP no Ar
Jornal da USP no Ar no ar veiculado pela Rede USP de Rádio, de segunda a sexta-feira: 1ª edição das 7h30 às 9h, com apresentação de Roxane Ré, e demais edições às 14h, 15h, 16h40 e às 18h. Em Ribeirão Preto, a edição regional vai ao ar das 12 às 12h30, com apresentação de Mel Vieira e Ferraz Junior. Você pode sintonizar a Rádio USP em São Paulo FM 93.7, em Ribeirão Preto FM 107.9, pela internet em www.jornal.usp.br ou pelo aplicativo do Jornal da USP no celular.
The post Isquemia intestinal pode levar ao agravamento da febre amarela appeared first on Giz Brasil.